A música continua sendo ruim...
A Desculpa do Mau Gosto
- Sábado, 22 de Abril de 2017
- 18:11
Se existisse um movimento musical no Brasil hoje, ele deveria se chamar "Movimento Huehuebr[a] Tropical". Sim, inventamos o gênero trollzão musical[b] que domina as baladas, os carros de som e os programas de auditório (sempre os programas de auditório). Gente que mal sabe falar ou escrever, ou os dois, brinca de ser cantor/compositor, ganha muita notoriedade por não produzir nada relevante e também muito dinheiro sem merecimento algum.
Diante da critica, o público se defende: "música é uma questão de gosto". Só não é bem assim. Música ruim não é uma noção subjetiva, pelo contrário, a "ruindade" de certas músicas, por assim dizer, é evidente e muito objetiva!
E só pra constar, eu ainda, não estou criticando nenhum gênero musical em específico, mas você provavelmente já deve imaginar do tipo de música que estou funk[c] falando, não é?
Definindo o que é uma boa música
Pode até não parecer, mas isso aqui é organização! Oh, e uma curiosidade: se você já assistiu Tom & Jerry já deve ter visto um episódio em que o Tom toca essa música no piano!
Edição John Orth
Antes de mais nada, é preciso entender que música[d] não é bagunça! Resumi-la a mera questão de gosto é ignorar que ela possui regras, normas e convenções que fogem do mero "eu acho que". São características que não escapam da razão e da lógica, o que significa que podem ser usadas como parâmetro entre o bom e o ruim. Afinação, tom, melodia e ritmo são alguns destes parâmetros. Quando não seguidos de acordo desorganizam a estrutura esperada de uma música e ela se torna, claro, ruim.
Por exemplo, se um cantor desafina ou um instrumentista ignora a estrutura lógica que a melodia ou ritmo devem seguir, isso não é uma questão de gosto, é um erro técnico que atrapalha a execução de uma música!
Além disso, música é arte, logo, ela deve ter um objetivo artístico que expresse um ponto de vista, um sentimento, uma opinião, uma sensação, etc.. É preciso ir além do "fui na balada e voltei". Ao deixar de cumprir esta função artística, ela se torna vazia, inexpressiva.
Baseado nisso, eu diria que música boa é aquela que busca manter o equilíbrio entre a qualidade técnica da execução e a expressão artística da mensagem que se quer passar. Claro, entenda que não existe só o bom e o ruim, há níveis intermediários de qualidade. Mas podemos afirmar que a música passa a ser ruim quando começa a falhar em algum nível destes aspectos técnicos e artísticos.
Exageradamente simples
Quanto mais mais técnica e expressiva uma música, melhor uma música é, só que elas acabam se tornando bem mais complexas também. Isso afasta o grande público, pois a complexidade exige muito mais atenção para ser apreciada. E convenhamos, nem todo mundo tem esta disposição o tempo todo.
Tipo, eu sei apreciar a simplicidade, nem sempre estou com saco pra ouvir as intrincadas linhas melódicas e artísticas do Pink Floyd. Então prefiro ouvir um Rolling Stones, que é claramente mais simples de se entender. Este é o ponto positivo de músicas simples, elas são mais facilmente compreensíveis e por isso atingem um público muito maior.
Só que há alguns problemas também. Músicas simples são menos variadas, usam menos acordes ou arranjos (ou simplesmente não os utilizam) e as letras expressam assuntos mais de senso comum. Não precisa ser um gênio da matemática pra entender que a probabilidade das músicas ficarem parecidas é maior.
E se você não vê problema nisso, deveria, pois tem artista exagerando nisso por aí! Olha só o verdadeiro ataque dos clones[e] que o cenário do sertanejo universitário virou! Todas as duplas e cantores são pouquíssimo originais entre si, com composições praticamente idênticas! Se tornaram reféns da própria incapacidade de irem além do feijão com arroz que a simplicidade impõe.
Eu faço uma expressão parecida quando ouço uma "nova" música de uma "nova" dupla de sertanejo universitário e ela ainda parece soar como Meteoro da Paixão.
Orlando Oliveira / AgNews
Chega-se ao ponto em que a música é totalmente descaracterizada, como alguns funkeiros fazem. Sem qualquer pudor, passam por cima das regras mais fundamentais da música, fazendo tudo de qualquer jeito. Quando o artista deixa de buscar a qualidade e passa a achar que desafinar é admissível (e isso eles fazem muito bem), não tem como negar que alguma coisa errada está acontecendo!
O público diz gostar sem nem ouvir
Diante de músicas praticamente iguais e extremamente repetitivas: *Plim!* o público entra no modo zumbi automático e nem presta atenção. Quantas pessoas escutam uma música só por que ela é a mais atual, ou por causa de uma dancinha engraçada, ou por que incentiva a bebedeira e a pegação...
Pra qualquer um destes casos, a música em si pouco importa! Ela deixa de ser uma forma de expressão artística e passa a ser um mero plano de fundo para situações quaisquer! Serve pra dançar, pra beber, e, principalmente, pra se esquecer, e nunca pra refletir.
Como era agradável chamar a família pra ver TV nas tardes de domingo dos anos 90!
Meme Reprodução / SBT
E não é de hoje, veja os anos 90 com seus grupos de axé e pagode de qualidade duvidosa! Dominavam o cenário musical e participavam de todos os programas de auditório dominicais de família (sempre os programas de auditório), apresentando exatamente músicas repetitivas, pouco originais, de baixo valor técnico e artístico e com letras estilo "Em cima! Em cima! Em cima! Em cima! (ad aeternum[f])".
Será que todo mundo que dizia gostar de pagode e axé continua gostando hoje em dia? Ou será nem prestavam atenção no que ouviam e agora transferiram o "gostar" pras barbaridades musicais de hoje!?
A desculpa do mau gosto
Se é possível diferenciarmos o que é uma música boa de uma ruim, não é bizarro as pessoas continuarem consumindo música ruim? Sim, é! E é justamente isso que eu quero alertar aqui!
Veja bem, ninguém compra uma camiseta de baixíssima qualidade por uma mera questão de gosto, certo? Compra-se por outros motivos (uma promoção ou por não se ter dinheiro), mas nunca motivado pela baixa qualidade dela! Seria no mínimo bizarro exigir-se baixa qualidade por gosto!
O mesmo deveria ocorrer com a música! Se ela é claramente ruim, ela é ruim, não tem como "achar" ela boa! É isso que eu chamo de a desculpa do mau gosto, pois pode-se dar outros motivos pra se ouvir uma música ruim, mas jamais o de dizer que gosta dela em si.
Funkeiros hoje produzem e vendem muita porcaria, mas na hora de ostentar só vão atrás de adquirir coisa boa, né? Imagine se as roupinhas e acessórios deles fossem equivalentes ao que produzem...
Reprodução / Divulgação
Não me entenda mal, você é livre pra ouvir o que bem entender, mas o ponto crucial é que se o público não liga pro que está sendo tocado, será que uma música de melhor qualidade o impediria de se divertir? Pra ser divertido tem que ser obrigatoriamente ruim?
Há uma quantidade absurda de artistas de qualidade buscando seguir uma carreira musical, só que diante da falta de critério do povo em escolher melhor o que vai ouvir, as gravadoras e a mídia dão muito mais espaço pras coisas medíocres e sem qualidade! O bom artista fica fadado a não ser reconhecido e quem quer ouvir boa música fica sem!
O que eu sugiro?
Acredito que o cenário musical seria outro se houvesse mais critério, pois a gente sabe que dá pra fazer música boa e divertida! Veja os bailes de antigamente, a época disco, a jovem guarda, o samba, o próprio carnaval e até a música infantil[g]! Dá pra agradar quem quer diversão e dá pra agradar quem quer ouvir uma boa música!
Talvez seja hora de o gigante acordar[h] pra música também e passar a prestar mais atenção no que se consome ao invés de viver dando uma desculpa tão idiota de que "música é questão de gosto" em detrimento de músicos e artistas que mereceriam muito mais espaço do que recebem!
Enquanto convivermos com a desculpa do mau gosto, artistas sem qualquer talento continuarão ganhando muito dinheiro e fama, com apoio da mídia e das gravadoras que também lucram. Quem perde é o público que, como sempre, permanece refém da própria ignorância.
- huebr é um termo criado para juntar as características mais impertinentes do povo brasileiro dentro do ambiente online. Normalmente chama-se de huebr brasileiros que são chatos, egoístas, preguiçosos, ignorantes, que tiram sarro de tudo e resumem tudo à zoeira. Veja mais em https://www.tecmundo.com.br/video-game-e-jogos/43301-coluna-o-que-sao-os-hue-br-onde-vivem-por-que-se-reproduzem-.htm
- Um troll, no ambiente online, é o termo que designa quem só quer zoar, semelhante ao huebr, mas de uma forma mais universal. Dizer que alguém está de trollagem é o mesmo que dizer que alguém está de zoação.
- O funk referido no texto inteiro é o funk carioca, mais especificamente o funk dos dias atuais. Não confunda com o clássico funk americano, que é claramente outro estilo.
- Música segundo a Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Música. Sim, Wikipédia, me julguem!
- Referência à Guerra dos Clones de Star Wars. Os Stormtroopers eram tropas formadas por clones do caçador de recompensas Jango Fett e foram usadas na guerra. O início da guerra é narrado no filme Star Wars - Episódio II: Ataque dos Clones. https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerras_Cl%C3%B4nicas.
- Em latim, ad aeternum significa eternamente ou para sempre. Na internet ele é usado para reforçar um deboche de quando algo é extremamente repetitivo. Veja mais em https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/ad%20aeternum
- Superfantástico, clipe oficial: https://www.youtube.com/watch?v=Pia8EBfzhF8. Engraçado que o clipe tem uns bonecos que dão medo hahahahaha!
- "O gigante acordou" foi o mote usado nas manifestações ocorridas em 2013 no Brasil, em que milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra o governo. O termo remetia ao fato da população brasileira ter finalmente acordado e se levantado contra os abusos da política, como a corrupção, os impostos elevados e os serviços públicos de péssima qualidade. http://exame.abril.com.br/brasil/o-ano-em-que-o-gigante-acordou/.
COMPARTILHE!
Curta e compartilhe nas redes sociais!